sábado, outubro 02, 2010

Pimentinha.

  Não sabia quanto tempo havia se passado desde que chegara ali, nem talvez tivesse a noção de quanto tempo os ponteiros que contavam as horas poderiam lhe ser, a pequenina de cabelos vermelhos que refletiam os raios do sol e de olhos azuis acinzentados corria pelo jardim do parque. Maria, a governanta, como seu pai costumava dizer embora ela não soubesse discernir o que aquela palavra implicava, a levara para ir brincar com as crianças que sempre lotavam aquele parque nas tardes de domingo, enquanto ela permanecia sentada em um dos bancos sorrindo enquanto a observava correr e rir com os coleguinhas.

  As bochechas, sempre branquinhas, se encontravam avermelhadas pela correria em meio as brincadeiras, demonstrando um possível cansaço que ela logo tratava de deixar de lado assim que alguém dissesse para que ela voltasse a brincadeira, ou quando mudavam para alguma que ela considerasse divertida. A pequena pimentinha era uma das crianças mais animadas ali, uma das mais agitadas para as brincadeiras, não deixando dúvidas do motivo de seu pai lhe chamar daquela maneira: Pimentinha.

   Era a mais encantadora e cativante dentre eles, era educada e mais inteligente do que a maioria das crianças de sua idade. Apesar de seus 6 anos de idade, falava corretamente, tinha hábitos e comportamento de uma criança mais velha, embora cultivasse aquele ar maroto, assim como seu jeito sapeca. Seu sorriso era perfeito. Era a imagem de uma princesinha, embora fosse tratada normalmente pelo pai, sem maiores mimos.

  Agachou-se e apoiou as mãos nos joelhos enquanto respirava fundo. Já estava naquela brincadeira de pique - esconde há um bom tempo e até então não havia sido ela a ir procurar. Sorriu com o pensamento de que era muito rápida e pensou se poderia apostar corrida com algum carro na volta para casa para que pudesse provar aquilo para Maria e contar orgulhosa para o papai. Ouviu uma voz chamar por ela, reconheceria aquela voz masculina em qualquer lugar e se virou para a direção onde Maria estava sentada. Seus olhos brilharam com a imagem do pai de pé ao lado do banco e com as mãos nos bolsos, sorrindo-lhe.

   Endireitou a postura e tornou a correr, dessa vez em direção ao homem loiro que acabara de avistar. Ele lhe estendeu os braços quando ela já estava perto e ela se jogou em seus braços, rindo divertida e o abraçando com força.

  - Você viu como eu corri rápido, paizinho? Eu ganho de tooooodos aqui, até mesmo de você!

   Ouviu-o rir e concordar, dando-lhe um beijo na bochecha rosada. Aquele som aqueceu seu coração, como sempre fora, apenas os dois, e por mais que Maria os ajudasse e a tratasse como uma filha, ela não sentia que era realmente daquela forma. Era sempre ele quem a fazia rir e se sentir bem, quem a colocava para dormir e lhe dizia palavras duras quando fazia algo errado. Ela entendia, mesmo que começasse a chorar naqueles momentos. Não podia negar que não entendia o motivo de não ter uma mãe, como todas as meninas que apareciam no parque e brincavam com ela. Via as mães a cuidarem de suas filhas enquanto ela tinha apenas Maria ali consigo. Mas ali, naquele momento, ela percebeu.

  Não precisava de mais ninguém, se seu pai estivesse ali com ela, daquela mesma forma, vendo-a correr e fazendo com que se sentisse feliz. Enquanto tivesse seu pai, sua vida estaria completa.


Perfil da minha pequena ruivinha, Cecília Saint-Clair Lockhamm Bennett, seis anos, filha de Millo Lockhamm Bennett e Audrey Saint-Clair.

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